SM
Segunda feira. Não hoje, claro, que hoje é sexta. Eu vou contar de segunda feira. Passada. Se a gente imaginar que a baía de Saint Brieuc é um V, estando Saint Brieuc no vértice, no domingo a gente foi pelo lado direito até a ponta, no farol. Segunda gente foi pelo esquerdo. A gente começou por uma ilha chamada Bréat (Breá). O nome parece preá, e eu fiquei tentando enxergar se dava para ver uma preá no mapa da ilha, para não esquecer o nome, mas não dava. Talvez os gregos antigos que inventaram o zodíaco conseguiriam. Mas eu consegui não esquecer o nome. A gente ia até uma cidade chama da Paimpol, que ficava na costa e de lá pegava a balsa para ir até a ilha. Mas não era nem que nem a balsa da praia grande. Era um barco só para passageiros mesmo. Tudo bem, a gente não tinha mesmo intenção de ir de carro... Quando a gente chegou, a maré estava bem baixa, o que fez com que a gente tivesse que andar um bom pedaço a pé. Aí a balsa chegou e a gente entrou e a travessia durou nem 5 minutos, porque o resto era apé de novo. Resumindo, quase que dava para atravessar andando. Talvez molhasse o sapato. Hehehe. Bem lá fomos nós, e andamos por essa ilhinha um bom tempo e tals. Era bonitinho, sim. Era ‘mignon’ pelo menos. Tinha várias pequenas casinhas nas cidadezinhas, e fazendinhas... Parecia coisa de conto de fada. A ilha, no inverno, tem 400 habitantes. No verão chega a 4.000. Coisa de louco! Segundo a Sophie, cheio de parisinense. Mas ela falou que queria comprar uma casa lá, e no inverno, ficar em casa, escrevendo romances, que é o sonho dela (por isso que a gente se deu bem! Sonhos iguais... hehehe), e no verão vender crepes e galettes para os turistas. O lugar onde a gente almoçou era assim. Era uma casa onde, de abril a outubro ele vendiam crepe adoidado, de dia e de noite. E o resto do ano, eles comiam crepe. Ou o dinheiro, pelo menos. Mas ela mesma concordou que deve ser meio difícil. Imaginem se a sede fosse uma ilha. A gente passa 6 meses recebendo novidade, e 6 meses fermentando as mesmas. E tudo que um faz ou não ou fala, ou não, ou sei lá, durante o inverno, faz uma tempestade. Coisa de louco! Mas no verão é uma ilha bonitinha para se visitar. Por cidade à beira-mar, eu prefiro Paraty, mas é um estilo diferente, e não é de todo mau. Gostei. Aliás, nessa cidade, eu entendi um cartão-postal-piada que falava no bretão na praia, na cidade e no campo, e ele sempre em cima de um tratorzinho. E lá as pessoas andavam também com uns tratorzinhos minúsculos. Pessoas, claro, os habitantes. A gente andava a pé. E nós fomos por um lado da ilha até a ponta e voltamos pelo outro lado.
Toda essa região era de pescadores. Acho até que ainda é, mas as coisas mudaram muito para essa gente. Eles saíam no começo da primavera e iam pescar na Islandia, lá pro Polo Norte. E ficavam pescando até o fim do verão. E no inverno, eles voltavam para casa e vendiam aquele bando de peixes e frutos do mar que eles tinham pescado. Só que evidentemente acontecia todo ano de algum (uns) navios não voltarem. E as famílias ficavam esperando perto de uma cruz, chamada cruz das viúvas, que fica em Paimpol, acho, para ver se chegavam os navios. E mesmo quando chegavam, dependendo da cor das velas, era se tinha morrido alguém ou não. E quando chegava no meio do outono, os navios que não tivessem chegado eram dados como desaparecidos, todo mundo morreu e pronto. Triste, né? E bem, quando a gente ainda estava indo, a Sophie me falou: “ah, numa cidadezinha ali perto tem um cemitério “três mignon”, quer dizer, muito fofinho. Eu fiquei imaginando o que seria um cemitério três mignon. Eu até tentei não rir, mas não deu. E enquanto eu não vi o tal cemitério mgnon, eu não sosseguei de chamar tudo mignon. Mas isso só aconteceu no fim do dia.
Mas estávamos nós na ilha e paramos numa igrejinha. Do lado de fora tinha o cemitério. Depois, no átrio, tinha dois bancos encostados na parede e várias placas grudadas falando de navios e marinheiros desaparecidos. Nossa, dava muita pena. Um monte de gente. E olha que a cidade é minúscula... Mas aí, dentro da igreja, eu vendo quietinha, dali a pouco, eu olho pro lado e vejo a Sophie e o Stephane discutindo sobre um santo. Me aproximo eu e com quem me deparo? Com nosso amigo Santo Expedito! Nossa, mal pude crer que tinha um Santo Expedito perdido nas terras longínquas bretãs! Já imaginou?! E a questão era que o santo tinha perdido a mão da cruz, por isso o cras na boca do corvo não fazia sentido. Eles estavam imaginando que era uma palavra onomatopaica. E eu expliquei, claro. E eles ficaram surpresos de como eu conhecia um santo o qual eles nunca tinham visto! Mas depois de saber identificar uma Nossa Senhora Aparecida, a segunda coisa que os nenês aprendem no Brasil é identificar um Santo Expedito. Está no sangue! Depois a gente continuou nosso passeio pela ilha. Chegou na ponta norte, e desceu pelo outro lado. E a gente foi numa igrejinha chamada Saint Michel. E lá eu aprendi que Era costume dedicar todas as igrejas em alto de morro para São Miguel. Vai lá saber por quê, mas era. Depois de lá, a gente foi embora da ilha, rumo ao famoso cemitério mignon. E olha, eu não diria propriamente mignon, mas eu gostei. Era interessante, digamos. Tinha uma parede chamada muro das memórias. E Nessa parede, tinha várias placas pretas com os anos e os navios com mortos de cada ano. Quando não tinha número nenhum, queria dizer que o navio tinha desaparecido. Nessa terra, eles tem muito esse costume de memória coletiva, principalmente ligada ao mar. E no meio dessas placas, tinha também algumas plaquinhas que as pessoas colocavam pelos seus mortos. Era muito triste. Mas era interessante. Enfim, conheci o cemitério mignon.
Saindo de lá, só para mais uma coisinha, a gente passou em um castelo muito modelo. Era um castelo construído em cima de um morrinho artificial bem pequeno. E depois tinha um fosso artificial, e ele tinha 4 torres redondas, era um quadradinho, super hiper estereotipizado. Eu até achei que fosse um século XIX da vida, mas não. Ele tinha sido atacado no séc XIII, acho. E tinha ficado em ruínas até hoje. Era muito legal ver, por uma das muralhas arruinadas, uma torre que acabava do nada, uma escada que ia de nenhum lugar para lugar nenhum, só sustentada por uma parede, tal e tal, bem de filme. E algumas partes mais inteiras... Foi o que eu mais gostei. Era meio assim, super romantismo, idade média sombria que não volta mais, mas eu gostei.
E por fim, para terminar essa mesma idéia, a gente foi numa abadia que tinha sido destruída pela revolução francesa. Era uma abadia bem grande, mas só tinham sobrado alguns pedaços e as duas paredes da igreja. E no meio cresciam flores e um jardim pseudo-desordenado. Idem na imagem, mas idem interessante. E porque eu lembro de alguns nomes hoje? Simples, porque na volta a Sophie me emprestou um romance sobre esses lugares, especialmente Paimpol, e os navios. Desses romances tipo rios de lágrimas com 2 páginas a cada 20 para a gente respirar. Muito triste, mas legalzinho, ainda assim. Ela adora esse tipo de coisa. Embora eu prefira livros alegres, ou pelo menos com final feliz, porque a vida já é triste, esse foi interessante. Nada de absurdamente literário, mas... E hoje, eu descobri que esse autor era franc6es, mas viveu muito tempo na Turquia. Quem me contou foi uma colega turca da sala. Tudo isso vai entrar no meu bocado de ciência da Efologia.
E de noite, mais uma chance de vomitar conhecimento inútil. Estava a família toda discutindo sobre a festa de quinta e alguém falou que a madrinha da Sophie já tinha prometido os ovos às clarissas para não chover. E me perguntaram obvio o que a gente fazia no Brasil para pedir para não chover e eu falei que a gente rezava para São Pedro, etc e tal. E estavam eles se perguntando o que fariam as clarissas com tantos ovos. E aí eu expliquei que era para engomar os véus, que elas usam de uma maneira toda especial, que elas usavam não sei se ainda hoje, mas até pouco tempo atrás, claras de ovo. Eu ainda prefiro o método São Pedro, mas... E aliás, enquanto eu estava pretinha encardida, a Sophie, por causa do sol estava super vermelha. Acontece que ela estava com uma blusa de alça e ficou marcado não só as alças da blusa como a alça da bolsa que ela carregava. Posso dizer bem feito? Posso. Bem feito. Mas eu tava encardida do cotovelo para baixo e na parte de cima do pé, que não era nem coberta pela minha saia, até o pé, claro, que é quase só isso que eu uso aqui, nem pelo sapatinho. E minha cara preta também.
E durante o jantar, eita família que gosta de temas polêmicos! Começaram a discutir sobre racismo. Que não sei quem era racista, que os franceses eram racistas, mas que aceitavam os orientais e não gostavam dos negros. E o tio pra mim, como que se desculpando, disse que não tinha preconceito, mas que não queria um negro na família, que era o que a Sophie estava defendendo que queria, porque o problema era que ela teria um monte de mulatinhos de filhos. E eu querendo um monte de nenês pretinhos! Mas tem povo besta, mesmo! Será que eles já viram um nenê pretinho? Minha mãe, quando era pequena tinha uma vizinha que teve um nenê pretinho. E quando chegou o nenê dela, minha tia, ela ficou muito brava e queria que minha avó devolvesse, porque ela era branquinha e sem graça! Para não gostar de nenê pretinho precisa nunca ter visto um! Pode ser que fique feio quando cresce, mas nenê pretinho é lindo! E o velho ainda completou que eu podia estar acostumada, mas eles não. E eu não me pude agüentar e respondi que a cada nova leva de imigrantes europeus, a gente tinha o trabalho de ensinar catolicismo para eles, ou seja, deixar de ser racista e catequizar as pessoas. É de fato estava todo mundo de acordo que esse era o segredo anti-racismo. E o problema era a religião. E fim da segunda.
E bem que eu queria escrever mais, contar mais coisas, mas o post ficou imenso.
Por isso beijos mil e estou com saudades, mas o fim se aproxima, Deo Gratias! SM!
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