Continuando de onde eu tinha parado. Domingo, a gente foi na missa. Era em Saint Brieuc, às 11 horas, numa capela chamada Notre-Dame d`Esperance. Ficou a família inteira reclamando que a Sophie estava sempre atrasada, e ela estava mesmo, atrasando pra missa, e ainda falaram pra ela seguir meu exemplo, porque eu estava pronta mais de 10 minutos antes de sair. Eu pensei mesmo em ficar quieta, mas pelo bem da verdade e da justiça, eu fui obrigada a explicar que esse fato só acontecia porque eu estava na casa dos outros. Fosse na minha, eu estaria atrasada e ela na hora, com certeza. Bem, ainda que eu não possa garantir a segunda parte, a primeira, por estatística amostral é verdadeira. Eps! A missa foi normal. Quem reza lá é um padre da Cristo Rei, todo arrumadinho, como soem ser os mesmos, com a batina impecável e o sapato de fivela, grande remoque dos franceses em geral. Enfim, durante a missa, salvo o fato de o povo não ser muito bom em cantar, foi tudo normal. Na hora do sermão, começou com os anúncios e tal, depois ele subiu no púlpito e começou a falar. Eu até tentei, mas 30 segundos depois, como eu não estava entendendo nada, eu simplesmente entrei em standby, e me preocupei com o meu terço. E era acordada somente pelo claque das folhas que ele jogava no chão. Pois é, ele lia e jogava no chão. E fazia claque, bem alto. E eu contei mais de 6. Mas de qualquer maneira, a duração do sermão foi 1 rosário. O que me fez lembrar do pe. Jonas. O que me fez lembrar também do dia anterior, no qual a gente tinha discutido a praticidade de contar distâncias em terços, pratica comparativa muito eficiente, adotada em diversos lugares do mundo. O que me fez perceber que mesmo com tanta distração, eu tinha conseguido rezar o rosário. O que me deu certeza que o sermão foi longo. Mas na volta, a madame Morin, que não é nem um pouco besta, burra, ignorante, etc me falou: “ah, você gostou do sermão?” Eu, no ai meu Deus, e agora. Mas ela me tirou do apuro. “Ah, eu nem sei do que ele falou. Nos primeiros 5 minutos eu não entendi nada, aí parei de prestar atenção.” Que bom, não tinha sido só eu. Eu quero dar uma sugestão para o pe. Perrel: no quinto ano de seminário, isto é, antes da ordenação diaconal, os seminaristas precisam ter uma aula de como fazer sermão. E isso inclui saber não ultrapassar uns 10 minutos.
Bem, o ms e a mdm tinham sido convidados para almoçar, então a gente almoçou e depois foi passear. E agora começam algumas dúvidas. Eu não sei bem se eu vou acertar os nomes das coisas, mas tudo bem. Eu vou contando e talvez eu descubra depois que errei, ou não. Bem, a primeira cidade foi uma cidadezinha, que eu já não sei o nome, claro. Ela tem uma igreja muito estranha. Porque ela começou a ser construída no século XI, depois, no século XIII ajuntaram uma porta e uma nave lateral, depois no século XIV mais outra coisa e finalmente no século XIX uma torre, e pintaram as paredes daquele jeito imitando pedra sendo pedra. Mas recentemente, isso é, faz uns 5 anos, acho, quando resolveram restaurar a igreja, eles encontraram nas paredes, pinturas do século XI. Pena que a gente não conseguiu entrar pra ver. Mas tudo bem. Disso tenho algumas fotos.
Depois de lá, a gente só deu uma parada em um castelo estilo medieval. Estilo mesmo, porque ele foi feito no séc XVI, acho. Ele tem uma muralha na frente com duas torres redondas guardando a porta, bem de desenho, e dentro tem o castelo, também fortificado. Mas além de ter várias janelas na muralha, quando a gente dá uma volta, a gente vê que a muralha só é alta na frente. Dos lados, não passa de um murinho. Ele chama Bien Assis, porque é como um retângulo deitado. É bem mais largo do que alto. Mas a gente não entrou e foi embora e pronto. Disso também tenho fotos.
Depois, a gente foi num tal de Cap Frehél. Lá tinha um farol, bem na pontinha da terra. Na chegada do farol, tinha um bar com uma plaquinha avisando: último bar antes da Grã-Bretanha. Muito engraçado... hehehe. Enfim, piadas a parte, chegamos no farol e o lugar era bem legal. Eu andei me lembrando que o professor tinha contado de um lugar onde ele tinha ido, cujo caminho era todo de flores roxas. Se ele falou, era esse lugar. Eles restauraram a flora do lugar. Dependendo da época, o chão fica todo roxo, ou amarelo ou branco. Quando eu fui, parece que estava trocando de época, não sei. Mas era bonito, mesmo assim. Fora isso, as beira-mares são todas praias de pedras. Algumas, na maioria das vezes, inacessíveis. E foi bem engraçado, quando a Sophie me mostrou uma praia chamada não sei o que dourada, a qual ela gostava muito, porque era de areia. Eu olhei e falei: “legal, pra mim, praia era sempre de areia. Fazia parte do meu conceito de paia a areia. Sem areia era beira-mar, não praia.” Mas aqui, o conceito foi alargado para acessível, nem que seja só de barco. Aqui eu também tenho foto.
Saindo de lá, nós fomos para um castelo bem ali perto. É um castelo no alto de um rochedo, bem defendidinho. Fora as várias coisas interessantes, uma das que eu mais gostei foi a pseudo-porta. Pois é, lá em baixo, em um canto, tinha uma corrente muito forte, na qual, se um barco entrasse, ele era sempre lançado contra os rochedos. Os espertinhos fizeram uma porta bem ali, no alto no promontório, como se ali fosse uma subida. Os inimigos vinham e chap! Boa, né? E depois, lá eu descobri outra coisa. Que as hortências que a gente conhece, azuis ou lilás, não passam de uma parte. Existem hortências super- rosa, super-roxas, brancas, lilás, azul claro, e as mais raras lá são as que nem a gente conhece. Porque ao que parece, a cor depende do material do solo. E em um mesmo canteiro, podem ter várias cores. Eu tirei fotos, aliás. E depois, tinha uma torre, em cima da qual tinha uma outra torrezinha. E eu fiz que fiz para subir, e primeiro ia só eu, mas depois acabou indo todo mundo, inclusive a Sophie, que tem medo de altura. E lá era super legal.
E para terminar sobre o castelo, pode ser hora de contar o primeiro mote da viagem. As caves, ou adegas, ou porões. Há alguns anos, a família Morin tinha uma empregada portuguesa chamada Maria, que morava lá na casa deles. E quando os meninos, Pedro e Zeca, foram lá nas férias de Natal, acho, eles começaram com piada de que as famílias francesas todas tinham escravas portuguesas e que as prendiam no porão. E quando eu cheguei lá, a piada estava já instaurada. E a cada subsolo pequeno, era sempre a casa das portuguesas. Só um detalhe, a Maria tem uma casa de campo em Portugal e viaja sempre. Mas a cada coisa que eu fazia para ajudar, era sempre a mesma piada: “ah, você também é um pouco portuguesa...”
Bem, depois que saímos desse castelo, a gente foi numa cidade, que eu também não me lembro o nome, onde tinha a tal praia de areia. Ela me falou: “une plage de sable”. E eu, na minha ingenuidade, pensei que fosse alguma areia diferente, sei lá. Eu perguntei “comment?” E ela “Il n’y a pas de pierres, il y a du sable.” Uau. Mas nessa cidade não tinha nada de muito útil a fazer. Só tomar um milkshake, três français, e pronto. Mas eu tomei um de café e era bom, viu. Até pra mim, que não sou muito ligada em sorvete.
E por fim, nós passamos em uma outra cidade medieval, a qual eu também não lembro o nome, claro. E nessa cidade, eu aprendi uma coisa nova. Por exemplo, a gente pensa, cidade medieval com um castelo. Montainha, fosso, castelo. Mas e se não tem montainha? A gente muda de lugar? Não, a gente constrói a montainha, oras. Legal, né? Eu não sabia. Essa cidade foi feita assim. Se bem que agora não tenha sobrado o castelo, só algumas muralhas, ela foi feita assim. Super, eu gostei. Mas aí já era tarde e a gente voltou pra casa.
Lá, tinham chegado uns tios. Não sei tios de onde, nem nada. Famía, enfim. E durante o jantar, a gente conversando e começaram a falar dos aborígenes na Austrália, onde mora um irmão lá da Sophie. E tal e tal, e eu na minha. E o tio do meu lado. Eu perguntava e era educada e tal, claro. Eu sou super fina. Sei comer como uma princesa, sei me interessar por assuntos que não tem o mínimo interesse, e sei perguntar com curiosidade coisas que eu não quero saber só porque a pessoa quer ser questionada. Enfim, nem era tanto o caso, eu estava gostando da conversa. Isso foi o caso em outro dia. No dia da festa. Mas, me vira o tio e fala: “ah, eu vi um filme sobre os índios do Brasil, e não era nada assim. Eles vivem em harmonia com a natureza, eles são civilizados mas não querem nem saber das coisas do mundo moderno.” Eu, “epa!” E o velho ainda insistiu, não é? E eu disse, não! Ele, mas eu vi num filme, e tal, e era um documentário de um francês que viajou pela Amazonia. E eu falei, claro, e ele viu as aldeias de teatro, onde os índio escondiam os Porsches no meio da floresta e fingiam. Ele não gostou, e ainda não acreditou em mim quando eu disse que tinha certeza absoluta que o tal francês tinha tido uma vigilância estrita do governo, e que mesmo os brasileiros não podiam visitar assim, de boas uma aldeia indígena, imagine os franceses. E todo mundo entrou na conversa e perguntou e eu expliquei, e todo mundo acreditou, mas ele não. Até que o ms Morin virou pra ele e falou: “é, talvez ela conheça alguma coisa do Brasil mais do que nós.” Ele continuou não acreditando, mas depois a gente até que ficou amiguinhos, eu e o tio.
E tudo isso foi um dia só. Só um domingo. Eu queria deixar tudo junto, então aí está. Amanhã eu conto outros dias. E bom, gente. É o que eu lembro. Continuo dizendo que foi uma super viagem. E pronto. Já falei de mais. Super beijos e estou com super saudades. Ainda bem que eu volto já já.
SM!
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